TĂȘnis x Frescobol - Rubem Alves
- Gleison Pessoa Machado
- Nov 3, 2021
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Depois de muito meditar sobre o assunto concluĂ que os casamentos sĂŁo de dois tipos: hĂĄ os casamentos do tipo tĂȘnis e hĂĄ os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tĂȘnis sĂŁo uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol sĂŁo uma fonte de alegria e tĂȘm a chance de ter vida longa.
Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: âAo pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: âVocĂȘ crĂȘ que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa atĂ© a sua velhice?\' Tudo o mais no casamento Ă© transitĂłrio, mas as relaçÔes que desafiam o tempo sĂŁo aquelas construĂdas sobre a arte de conversar.â
Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama sĂŁo sempre decapitados pela manhĂŁ, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O impĂ©rio dos sentidos. Por isso, quando o sexo jĂĄ estava morto na cama, e o amor nĂŁo mais se podia dizer atravĂ©s dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultĂŁo se calava e escutava as suas palavras como se fossem mĂșsica. A mĂșsica dos sons ou da palavra - Ă© a sexualidade sob a forma da eternidade: Ă© o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. HĂĄ os carinhos que se fazem com o corpo e hĂĄ os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras nĂŁo Ă© ficar repetindo o tempo todo: âEu te amo, eu te amo...â Barthes advertia: âPassada a primeira confissĂŁo, âeu te amo\' nĂŁo quer dizer mais nada.â Ă na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, nĂŁo em sua nudez anatĂŽmica, mas em sua nudez poĂ©tica. Recordo a sabedoria de AdĂ©lia Prado: âErĂłtica Ă© a alma.â
O tĂȘnis Ă© um jogo feroz. O seu objetivo Ă© derrotar o adversĂĄrio. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tĂȘnis para fazer o outro errar. O bom jogador Ă© aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversĂĄrio, e Ă© justamente para aĂ que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sĂĄdico, que Ă© o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tĂȘnis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo nĂŁo pode mais continuar porque o adversĂĄrio foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tĂȘnis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. SĂł que, para o jogo ser bom, Ă© preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que nĂŁo foi de propĂłsito e faz o maior esforço do mundo para devolvĂȘ-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegĂĄ-la. NĂŁo existe adversĂĄrio porque nĂŁo hĂĄ ninguĂ©m a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguĂ©m ganha. E ninguĂ©m fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja Ă© que ninguĂ©m erre. O erro de um, no frescobol, Ă© como ejaculação precoce: um acidente lamentĂĄvel que nĂŁo deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo Ă© aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas nĂŁo tem importĂąncia: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguĂ©m marca pontos...
A bola: sĂŁo as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar Ă© ficar batendo sonho pra lĂĄ, sonho pra cĂĄ...
Mas hĂĄ casais que jogam com os sonhos como se jogassem tĂȘnis. Ficam Ă espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diĂĄrio pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, Ă© sobre este jogo de tĂȘnis:
âCena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silĂȘncio, mas, com pequenas frases secas, destrĂłi todos os propĂłsitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e Ă© assim que nasce o Ăłdio. Exemplo: com um sorriso: âNĂŁo se faça mais estĂșpido do que Ă©, meu amigo\'. A galeria torce e sorri pouco Ă vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mĂŁo suspirando: âTens razĂŁo, minha querida\'. A situação estĂĄ salva e o Ăłdio vai aumentando.â
TĂȘnis Ă© assim: recebe-se o sonho do outro para destruĂ-lo, arrebentĂĄ-lo, como bolha de sabĂŁo... O que se busca Ă© ter razĂŁo e o que se ganha Ă© o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.
Jå no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...


